Quarta-feira, 3:21 da manhã.
Mais uma noite sem sono, interrompido pelo temporal que desabava lá fora. Às vezes me irritava com a quantidade de chuva que caia nessa cidade e batia uma pequena saudade daquela terra ensolarada. Havia deixado a cama a pouco, depois de tanto rolar nela. O jantar daquela noite havia sido maravilhoso, mas parecia que a comida estava revolta dentro de mim. Preparei um chá, achando que acalmaria e aqueceria meu corpo que havia confrontado o calor da cama para o ar fresco daquela madrugada. No fim, lá estava eu, sentado na frente da lareira. Olhei para o fogo que ardia e depois um pouco para cima, lá estavam as nossas fotos. Oito anos se passaram e muitas coisas aconteceram, e aquelas fotos, posicionados estrategicamente nas suas mais diferentes molduras, contavam nossa história, congelada no tempo.
Rapidamente as histórias vieram ao meu encontro. Uma enxurrada de emoções, imagens e vozes invadiu minha cabeça.
As primeiras conversas naquele site estranho. Será que aquilo ainda existe? Depois para o MSN, outro falecido. Eu que não conseguia ainda enxergar muito bem por causa da cirurgia corretiva. Meu cabelo, era tão longo naquela época. Marcelo vivia enrolado em casacos de capuz, sofrendo com o frio, enquanto eu ofegava com tanto calor. As conversas se tornaram mais frequentes, cada dia mais, cada vez mais horas online. E não demorou muito para perceber que havia uma química muito estranha por trás daquilo. Embora Marcelo estivesse a mais de 8 mil km de distância de mim, ele fazia meu coração acelerar. Vieram as conversas com vídeo, e até que um dia, percebi que estava amando de novo.
Durante um tempinho confrontei meus sentimentos, afinal como poderia amar alguém tão longe e que sequer conhecia pessoalmente? Mas meu coração me mandou arriscar e o pedi em namoro. Não foi da forma que eu gostaria que fosse. Na verdade, ele que tinha ficado encarregado disso, mas não aguentei. Precisava ter ele só para mim.
O tempo passou e finalmente nos encontramos. Lembro estar todo desajeitado, saindo da porta do aeroporto, um tanto assustado. Pensava “e se não for tudo isso, se foi algo que meu coração me enganou?”. Mas ao vê-lo sorrir vindo em minha direção, tive certeza. Era ele.
Nosso primeiro beijo ainda lembro com uma nitidez incrível. Minha memória continua me traindo, mas é impossível me esquecer daquela cara de bobo que ele fez. Aquele certamente não foi o nosso melhor beijo, mas foi o primeiro. Foi nosso primeiro contato físico. Foi... nós.
Essa viagem era um sonho que a muito eu queria realizar. Portugal foi encantadora à primeira vista, e estar com ele só me fez sentir que estava no lugar certo e com a pessoa certa. Ele foi responsável por esse sonho. E meu amor por ele só aumentou.
Milhares de lembranças invadem minha cabeça agora... Tudo ao mesmo tempo... Algumas decepções, como os pastéis de Belém, mas muitas outras alegrias. Como nos divertimos fazendo compras, construindo um lugar para chamar de casa... Nossa casa! A casa que eu viria a compartilhar com ele tempos depois, onde finalmente nos aninharíamos no sofá e veríamos TV, ou simplesmente dormiríamos todas as noites juntos. Era o sonho de um ano, em que as horas dentro do avião eram as de mais pura expectativa até a chegada e o reencontro, que tomavam forma finalmente.
Nos casamos numa tarde, tempos depois, sem grandes luxos. Finalmente criamos o laço de eternidade, aquilo que não precisávamos fazer, mas o fizemos porque queríamos. Era a nossa forma de selar nosso amor. Não passava de um papel, mas para nós era muito mais que isso. Somente algum tempo depois que voltaríamos para comemorar com nossos amigos essa nova etapa.
Vida de casal nem sempre é tão fácil. Passamos envolvidos entre papéis e computadores. Às vezes a casa ficava bagunçada, as crises surgiam e as brigas incendiavam. Mas nada como entender que aquilo não nos fazia bem e a situação voltava a ficar normalizada. Nossos estudos nos trouxeram estabilidade financeira e emocional. Aos poucos nos tornávamos o casal de rotina, que de vez em quando escapa para algumas loucuras. Desbravamos o que podíamos do mundo, fazendo que nossa lua de mel jamais terminasse.
Bom, oito anos se passaram e não me arrependi de nada que fiz. Havia conquistado o coração de quem mais amava e agora estávamos juntos. Já estava com meus 35 anos, me preparando para dar outros passos maiores. Meus cabelos, cada vez mais grisalhos e a pele já não era mais a mesma. Nossos antigos hábitos foram deixados de lado, agora prezamos mais pela qualidade do que pela quantidade. Apreciamos o bom vinho, e não o teor alcoólico dele. Deixamos o sedentarismo de lado, em busca de uma velhice mais saudável. E precisava de alguém para me acompanhar nessa jornada, e ela estava no quarto ao lado, dormindo.
Com um sorriso no rosto, e uma pequena lágrima no canto do olho se formando, mexo no fogo para extinguir suas chamas.
Me pondo de pé novamente, vejo as fotos da lareira e acaricio uma delas, em que se encontravam dois jovens sonhadores. Um sorriso nostálgico se abre em meu rosto e decido que é hora de voltar para cama. E volto para o quarto para abraçar meu amado, que dormia tranquilamente.
TE AMO e desejo muito que isso seja de verdade daqui a oito anos.
FELIZ UM ANO DE NAMORO e nos encontramos em breve para casar.
Do teu e somente teu,
Airton.